Mais um dia. Acordo tarde, sei que é tarde. Não olho no relógio, mas sinto. A luz que entra por entre as frestas da cortina, não me permite que eu abra os olhos, me cega.
Ataques compulsivos de espirros me acometem, sempre. Cada novo dia conto dez, quinze, vinte espirros. Dia após dia, é sempre uma bagunça, mas desde que parei de usar camisetas velhas para conter os projéteis lançados a bagunça diminuiu. Uso papel agora, mas eles aumentam a quantidade de espirros apesar de ser mais higiênico.
Papel higiênico, esse é o nome. São de boa qualidade, o melhor do mercado. Comprei vários rolos um dia desses. Promoção. Acabou se tornando um ato caro, sempre o despertar. Seja manhã, tarde ou noite, o espirro. Os espirros me anunciam o momento de levantar.
Certa vez me perguntaram por que isso acontecia, não soube responder. Acredito que seja um processo natural, como lacrimejar ao cortar cebolas ou ficar sonolento ao ler um livro enfadonho. A pessoa me indagou novamente: Talvez seja alergia, talvez você devesse limpar melhor o teu quarto?
Pensei comigo: É talvez. Mas me lembrei que o quarto havia sido limpo no mesmo dia, e não é por causa do local, outros lugares talvez mais higiênicos já adormeci e não solucionou o problema.
Higiênico, papel higiênico. Volto a pegar mais um pedaço e assuar o nariz, esperançoso para que cesse. Engano, não cessou.
Volto a refletir: Talvez eu tenha mesmo alergia. Alergia a acordar talvez. Eu sou único. A única pessoa no mundo a ter alergia a acordar. Alergia estranha de se ter, mas quem não é? Estranho, digo. Alérgicos têm aos montes também, mas não focarei neles.
Começo a pensar, e se eu não dormisse? Como seria? Nunca gostei muito de dormir, me esforço para fazê-lo o mínimo possível. Esforço em vão. Adormeço.
Mais uma vez acordo com um espirro. Higiênico, papel higiênico.
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DAY IN
DAY OUT
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