
“Com um pouco de areia eu mostrarei o terror a vocês”. Com tal frase T.S. Eliot¹, estampada em cartazes sem muito alarde, se deu o início da série Sandman, que alçou Neil Gaiman para as estrelas, como um dos grandes escritores da atualidade.
Tendo se tornado uma das histórias em quadrinhos de sucesso mais bem vendidas, ela tem como personagem central Sandman conhecido por vários nomes, Morpheus, ou Sonho são alguns deles. É rei do sonhar - o mundo dos sonhos e um imortal como seus irmãos, os únicos de sua raça. Os Perpétuos (Morte, Desejo, Delírio, Desespero, Destino e Destruição) como são chamados, são seres que já habitavam o universo antes de tudo existir e partirão depois que tudo se extinguir. Cada qual possui domínios próprios e costumam passear por entre os humanos, às vezes em seus sonhos e suas mentes, outras vezes acabam presos por ocultistas inescrupulosos que almejam os seus poderes, ou simplesmente tentando ser um de nós, viver e se apaixonar, seja esse amor humano ou não.
Mesclando uma série de referências da cultura pop com mitologia e história (até Shakespeare faz uma ponta em algumas histórias), Gaiman eleva os quadrinhos a outro patamar. Com uma proposta divergente do rotineiro, em que os heróis não mais são o foco e as histórias não são mais infantis, ele cria uma trama intrincada levando o leitor habitual a um novo nível.
Sempre trajando uma velha jaqueta de couro e roupas pretas, Gaiman conquistou uma legião de fãs. Por onde passa fica a impressão de estar-se diante de um “pop star” do mundo musical e não apenas um escritor. Mas não são apenas fãs que ele coleciona. Prêmios é o que não falta em sua estante. Trata-se de um artista multimídia, com trabalhos em prosa, poesia, filmes, jornalismo, músicas, quadrinhos e dramaturgia. Depois da criação de Sandman, acabou se tornando uma espécie de alquimista dos dias modernos. Tudo que ele cria se transforma em sucesso de crítica e de público. Conseqüentemente, mais troféus e ouro.

Gaiman totaliza 29 prêmios dos mais variados e mais que o dobro de indicações (a maioria para a série Sandman). O mais celebrado é o World Fantasy Award de 1991, por melhor história curta, com “Sonho de Uma Noite de Verão” (número 19 da série), uma releitura da obra homônima de Shakespeare. Provando ao mundo que quadrinhos é arte e pode ser aceito como tal. Os literários se sentiram tão ofendidos por serem desbancados por uma história em quadrinhos que vetaram a participação delas desde então, restringindo-as à categoria “Prêmio Especial”. Ou seja, Gaiman é o único quadrinhista a abocanhar o prêmio.
Mas não só de quadrinhos vive este homem. Ele também já escreveu diversos livros, sendo o primeiro Deuses Americanos, um dos mais bem sucedidos, chegando a ficar em primeiro lugar da lista de Best Sellers do New York Times. Os Filhos de Anansi repetiu o feito. Também se aventurou pela literatura para crianças. Com Coraline, Gaiman chegou ao posto de livro infantil mais vendido, contando a história de uma garotinha que se muda para uma casa grande com vários quartos alugados, em meio a vizinhos excêntricos que sempre pronunciam seu nome errado, Caroline. Explorando o lugar descobre em um quarto vazio uma realidade paralela habitada por seres diferentes e tudo parece perfeito, até que ela se dá conta de que o local é perigoso e mortal do qual precisa escapar.
Com suas histórias recheadas de fantasia e mito, Gaiman leva para as histórias infantis a mesma receita que usa para as várias histórias adultas, assumindo que as crianças são dotadas de inteligência para assimilá-las. Todas as narrativas são recheadas com certa intimidade e um senso de humor refinado. O ingrediente principal, o medo. Seja ele com relação a Os Lobos dentro das paredes, ou em O dia em que troquei meu pai por dois peixinhos dourados, Neil sempre busca abordar temas sombrios, pois acredita que as crianças também aprendem com o medo.
Além dos livros, ele ainda deseja alcançar mais, muito mais. Assim começam as suas aventuras por entre o mundo do cinema, em roteiros como Princesa Mononoke e A lenda de Beowulf (ambos animações, sendo o primeiro um longa japonês e o segundo uma superprodução hollywoodiana). Foi convidado pelos criadores e muito bem sucedido e aceito pela crítica e público. Também se mostrou como diretor em A Short Film With John Bolton (um curto filme sobre John Bolton), no qual se sentiu mais realizado por ter domínio sobre tudo, desde as falas e como elas seriam ditas, passando pelo roteiro e cenas. Também fez o roteiro adaptado de sua própria obra Stardust e ajudou em Máscara da Ilusão, com direção de Dave Mckean, amigo e parceiro de longa data, que detém o título de maior colaborador do autor.

Desde seu início nos quadrinhos, Gaiman conta com Mckean em diversos trabalhos. Eles se conheceram no projeto mal sucedido de uma revista que reunia diversos artistas de várias áreas. Naquela época, Gaiman era um jovem jornalista que tinha uma queda pela nona arte. Encontrou um parceiro que poderia ilustrar suas obras: um Dave Mckean em pleno curso de Design. A revista nunca chegou a sair, mas juntou a dupla. Foi aí que surgiu Violent Cases, a primeira história em quadrinhos deles. Logo em seguida, Signal To Noise.
Auxiliados por um então já famoso Alan Moore, considerado um dos papas dos quadrinhos modernos, Gaiman e Mckean conheceram Karen Berger, diretora-executiva da DC Comics, para mostrar a proposta de reviver uma personagem antiga da editora, Orquídea Negra. O garoto que um dia foi orientado a cursar contabilidade, pois desejava o impossível, acabara de realizar seu sonho: Escrever quadrinhos americanos.
Devido ao excelente trabalho feito com essa minissérie, eles ficaram conhecidos e se inseriram no mercado americano. Depois de algumas outras histórias dentro da editora, surgiu a oportunidade de ter um título mensal. Após muitas discussões, Gaiman decidiu, assim como fez com a Orquídea, reviver um herói antigo da DC: Sandman. Que vestia um sobretudo preto e saía pelas ruas a caça de bandidos com uma máscara de gás e uma pistola que os colocava para dormir.
Com essa bomba e a permissão para reinventá-lo, Gaiman decidiu voltar ao mito de Morpheus, o deus dos sonhos, no qual foi inspirado o herói. Queria algo em que pudesse colocar tudo o que sempre desejou misturar e experimentar, uma história para pessoas que não tem o hábito de ler quadrinhos. Foi lançada em dezembro de 1988, com uma proposta interessante, mas meio devagar com artistas semi-desconhecidos estampando as capas que fugiam do convencional (Não tinha o personagem principal nelas), sendo estampadas com as colagens e montagens surreais de Mckean. A revista, apesar de nova, com o tempo foi ganhando novos adeptos e o nome de Gaiman começou a ser lembrado.
Sandman ganhou força a partir do sétimo mês nas bancas, com a história “O Som de suas Asas”, na qual ele apresenta Morte, a irmã mais velha de Sonho, que ao contrário dele, é uma figura alegre, bonita e extremamente carismática. Trajando o estilo gótico - cartola e guarda-chuva viriam a complementar o figurino depois - e uma ankh (símbolo egípcio da vida após a morte) no pescoço. Nesse ponto o título ganhou um expressivo aumento em suas vendas e a certeza de que não seria cancelado.
A partir de então, Gaiman ganhou força na editora, a ponto de conseguir para si, Mckean e os primeiros desenhista e arte-finalista, Sam Kieth e Mike Dringenberg, parte dos direitos autorais. Apesar da DC alegar que era um personagem antigo da editora, era mais do que óbvio que ele havia criado algo completamente novo. Talvez por se sentir ameaçada por uma possível decisão do autor deixar o título que, na época havia se tornado o mais bem vendido de toda a DC, a empresa cedeu parte dos direitos a eles.
Depois de sete anos Gaiman finalizou a série. Segundo o ele, todas as boas histórias têm um começo e um fim. E Sandman é uma boa história. Apesar dos fervorosos protestos da DC, o autor matou o personagem principal encerrando assim, após 75 edições, o título.

Mesmo com o final de Sandman a DC não parou de lucrar. Ano após ano, relançando a série em encadernados cada vez mais luxuosos e caros. Gaiman ainda abrilhantou, para delírio dos fãs, outras aparições dos personagens, lançando um belo álbum em prosa intitulado Sandman - Caçadores de Sonhos, história comemorativa dos 10 anos da série, com ilustrações de Yoshitaka Amano, um trabalho que casa perfeitamente palavra e imagem com maestria e leveza, recontando de forma belíssima uma das lendas mais populares do Japão, “A Raposa, o Monge e o Mikado dos Sonhos”, que novamente consagrou a ambos com prêmios.
Mais tarde, ao publicar o especial Noites Sem Fim, que contém sete histórias dos perpétuos, desenhadas pelos melhores ilustradores da atualidade, obteve sucesso imediato, tanto que esse encadernado estreou em vigésimo lugar no ranking do New York Times de mais vendidos, sendo a primeira HQ a entrar na lista.
Seja em qualquer estilo, esse quarentão inglês de Portchester que atualmente vive em Minneapolis se supera cada vez mais. Arrebatando legiões de fãs pelo mundo afora, por onde quer que sua obra chegue, seu nome é lembrado e celebrado como um dos maiores escritores da atualidade, rodando o mundo divulgando o seu trabalho e distribuindo autógrafos, assombra a todos por sua paciência e alegria para com seus fãs. No início de Sandman, Gaiman brigava com os desenhistas, pois queria que Sonho se parecesse com ele. Acabou perdendo essa luta, mas talvez por isso tenha se aproximado ainda mais da sua criatura, controlando um reino cheio de magia e fantasia, sentando ao trono do legítimo criador de sonhos.